Gerinaldo, Gerinaldo Criado do rei mais querido Bem podias à noite, Ir dormir comigo. - Quem me dera minha senhora - Eu bem a sério to digo - Se a senhora fala a sério Diga-me a hora que hei-de ir. - Das onze para meia-noite Está o papá a dormir. Gerinaldo ao pustigo Com os sóquinhos na mão Para não fazer rugido Meteram-se os dois na cama Como mulher e marido. O rei tivera um sonho Que bem certo lhe saiu Ou que lhe roubaram o palácio Ou que a filha lhe dormiu. De volta ao palácio Não achou nada bulido Foi ao quarto da princesa Gerinaldo lá metido. - Pra vos matar os dois De Deus tenho receio. Puxou pelo espadim E meteu-o aos dois no meio. Lá para a noite adiante A princesinha acordou O espadim de seu pai No meio dos dois encontrou. - Acorda, acorda Gerinaldo Nosso crime é sabido O espadim de meu pai No meio de nós está metido. - Dá-me um beijo minha senhora Rainha da formosura A noite que dormi consigo Vai-me servir de amargura. - Calma, calma Gerinaldo Sossega teu coração Vou escrever a meu pai Pra saber da nossa feição. O pai foi ter com Gerinaldo e perguntou-lhe: - De onde vens Gerinaldo Que vens tão coradinho - Venho de dar água aos cavalos Que ainda hoje não tinham bebido. - Não me mintas Gerinaldo Tu nunca me tinhas mentido. - Venho de caçar uma rola Dos lados de lá do rio. - A rola que tu caçaste Criei-a eu no meu trigo Trata-a como mulher E ela a ti como marido.
Por D. Laura Seixas |