História do Gerinaldo

Gerinaldo, Gerinaldo
Criado do rei mais querido
Bem podias à noite,
Ir dormir comigo.
- Quem me dera minha senhora
- Eu bem a sério to digo
- Se a senhora fala a sério
Diga-me a hora que hei-de ir.
- Das onze para meia-noite
Está o papá a dormir.
Gerinaldo ao pustigo
Com os sóquinhos na mão
Para não fazer rugido
Meteram-se os dois na cama
Como mulher e marido.
O rei tivera um sonho
Que bem certo lhe saiu
Ou que lhe roubaram o palácio
Ou que a filha lhe dormiu.
De volta ao palácio
Não achou nada bulido
Foi ao quarto da princesa
Gerinaldo lá metido.
- Pra vos matar os dois
De Deus tenho receio.
Puxou pelo espadim
E meteu-o aos dois no meio.
Lá para a noite adiante
A princesinha acordou
O espadim de seu pai
No meio dos dois encontrou.
- Acorda, acorda Gerinaldo
Nosso crime é sabido
O espadim de meu pai
No meio de nós está metido.
- Dá-me um beijo minha senhora
Rainha da formosura
A noite que dormi consigo
Vai-me servir de amargura.
- Calma, calma Gerinaldo
Sossega teu coração
Vou escrever a meu pai
Pra saber da nossa feição.
O pai foi ter com Gerinaldo e perguntou-lhe:
- De onde vens Gerinaldo
Que vens tão coradinho
- Venho de dar água aos cavalos
Que ainda hoje não tinham bebido.
- Não me mintas Gerinaldo
Tu nunca me tinhas mentido.
- Venho de caçar uma rola
Dos lados de lá do rio.
- A rola que tu caçaste
Criei-a eu no meu trigo
Trata-a como mulher
E ela a ti como marido.

Por D. Laura Seixas